A Preservação das Escrituras Sagradas

ago 30, 2010 by

A Preservação das Escrituras Sagradas

Por Marcio S. da Rocha.

(Revisado e ampliado em 23/02/2013)

A Bíblia que temos hoje é autentica e confiável?

Os originais da Bíblia, escritos pelas próprias mãos dos profetas e apóstolos não existem mais. Tudo indica que se estragaram devido ao tempo decorrido desde que foram escritos e também ao seu muito uso. Entretanto, há razões de sobra para crermos que os livros da Bíblia foram copiados (à mão) e transmitidos com alto grau de fidelidade, geração após geração, durante os primeiros quinze séculos da era cristã, chegando até nós com grande confiabilidade.

O Novo Testamento é a literatura mais bem documentada da antiguidade. Somente em Grego (sua língua original), segundo Bruce Metzger[1], existem hoje cerca de 5.700 manuscritos. Eles se encontram nos museus e mosteiros da Europa e em museus da América do Norte. Alguns são cópias de livros completos e outros de partes (páginas inteiras ou fragmentos). Além disso, existem aproximadamente 19.000 versões em outras línguas, perfazendo um total de aproximadamente 25.000 manuscritos. Como se não bastasse, existem aproximadamente 18.000 textos dos chamados patriarcas (líderes da Igreja nos primeiros quatro séculos) que citam versos dos livros do Novo Testamento. Segundo os eruditos, apenas os versos citados pelos “pais da igreja” seriam suficientes para reconstituir todo o Novo testamento.

Para se ter idéia da diferença, em termos de documentação, entre o Novo Testamento e outras literaturas antigas, a segunda literatura antiga mais bem documentada é a Ilíada de Homero, da qual existem hoje em dia apenas cerca de 500 cópias manuscritas. Além disso, a distância entre o original e as cópias existentes dessa obra é de mais de quinhentos anos.

As datas de alguns manuscritos fragmentários (incompletos) remontam ao segundo século, e um deles, o papiro denominado Ryland (p52), que contém apenas alguns versos do Evangelho de João, foi datado de próximo ao ano 120 d.C., portanto, menos de trinta anos desde que o original foi escrito. Os dois manuscritos gregos completos (com todos os 27 livros do NT) mais antigos em nossa posse são o Codex Sinaiticus[2], representado por א e o Codex Vaticanus, representado por B, que datam do Século IV.

É digno de nota que não há divergências entre os estudiosos sobre as datas dos documentos do Novo testamento. Mesmo os estudiosos não cristãos concordam neste assunto.  Segundo o Dr. Darrell L. Bock[3], “A maioria dos estudiosos bíblicos data o último evangelho bíblico, o de João, entre os anos 90 e 100 d.C.”.

E o problema das variantes do Novo Testamento?

Algumas pessoas argumentam que existem mais de 200.000 variantes nos manuscritos antigos e que, por isso, o texto do Novo Testamento que temos hoje é diferente do original, não sendo mais confiável. Infelizmente, a vasta maioria das pessoas que afirmam isto não se deu ao trabalho de examinar essas leituras variantes. O fato é que grande parte das variantes entre os manuscritos é insignificante e se constitui de simples erros ortográficos ou variações na escrita de nomes próprios, tais como demonstram os exemplos 1 e 2 a seguir.

Variantes Insignificantes ou Simples

Exemplo 1 – Mateus 1:10

Ἀμώς (Amós)

Manuscritos que trazem essa leitura: א B C Δ Γ Θ Π* f1 33 157 205 1071 1079 1291 1546

Ἀμών (Amon)

Manuscritos que trazem essa leitura: E K L W Π2 Σ f13 28 180 565 579 597 (700 892 1195 1006 1009 1010 1216 1230 1241 1242 1243 1342 1365 1424 1505 1646 2148 Byz.

Exemplo 2 – Romanos 1:29

πονηρίᾳ (ponería = maldade)

Manuscritos que trazem essa leitura: א C 33 81 1506 copsa copbo(mss) eth (geo1) Orígeneslat(2/6)) João de Damasco.

πορνείᾳ (porneía = imoralidade sexual)

Manuscritos que trazem essa leitura: Dsupp* E G 1912 l593 1852vid itd ite itg

As variantes simples são assim classificadas porque nelas é mais fácil determinar o tipo de erro cometido pelos copistas; também porque não alteram os significados dos respectivos versos. Esse tipo constitui a maioria das variantes do Novo testamento. Observe-se, nesses dois exemplos aqui apresentados, que as variações ortográficas ocorreram por causa da semelhança da grafia das palavras no Grego ou por variantes de nomes de pessoas e lugares, fato bastante comum na literatura antiga. Enquanto a variação no segundo exemplo pode ser considerada como um erro no processo de cópia, no primeiro exemplo a variação ocorreu devido a um fenômeno comum nas línguas antigas — variantes nos nomes de pessoas e lugares.

Outra grande parte das leituras variantes aconteceu devido apenas à troca da posição de palavras, tais como Jesus Cristo por Cristo Jesus.

Dos versos onde são observadas leituras variantes entre os manuscritos do Novo Testamento, aproximadamente 95% são variantes insignificantes.

Variantes Significantes ou Difíceis

As variações que se podem classificar como significantes ou difíceis nos livros do Novo Testamento são principalmente as chamadas adições ou omissões, bem como as palavras diferentes, encontradas nos mesmos versos em diferentes manuscritos, cujos significados alteram os significados dos respectivos versos e passagens onde elas ocorrem. Alguns manuscritos apresentam palavras, frases, versos ou até trechos inteiros que não constam em outros manuscritos. E em alguns versos, manuscritos diferentes trazem algumas palavras com grafias e significados diferentes. É difícil determinar hoje se as palavras e/ou versos que constam em alguns manuscritos foram adicionados por copistas naqueles que os trazem, ou se foram omitidos nos que não os trazem. Também é difícil saber se tais diferenças aconteceram intencionalmente ou se foram causadas por falhas humanas, durante o processo de cópia.

Apesar dessas variantes mais difíceis afetarem os significados dos respectivos versos, vários teólogos e eruditos textuais, tais como o já citado eminente Dr. Bruce Metzger, bem como o brasileiro Wilson Paroschi (autor da obra “Crítica Textual do Novo Testamento”, da editora Vida Nova, 2a. edição, 1999), afirmam que nenhuma variante do Novo Testamento afeta as doutrinas essenciais do Cristianismo. O autor deste artigo tem pesquisado as variantes mais significantes do Novo Testamento desde 2009, sob orientação do Dr. Johnson C. Philip, da Trinity Graduate School of Apologetics and Theology (Kerala-Índia), e, já tendo analisado  mais de duzentas dessas varantes principais, concorda com os grandes eruditos que nenhuma variante significante do Novo Testamento afeta qualquer doutrina essencial do Cristianismo. Aliás, na citada pesquisa do autor deste artigo, até o presente momento, as duas únicas doutrinas afetadas pelas variantes significantes se encontram nos Evangelhos, e são: (1) ter que jejuar antes de expulsar certo tipo de demônios — um ensino periférico do Cristianismo, que talvez nem possa ser considerado uma doutrina (ver exemplo 3, a seguir); e (2) odiar ao irmão sem motivo traz o julgamento divino (Mateus 5.22 – ver exemplo 4 deste artigo e seu comentário).

Exemplo 3 – Mateus 17:21 –Variante Significante 

τοῦτο δὲ τὸ γένος οὐκ ἐκπορεύεται εἰ μὴ ἐν προσευχῇ καὶ νηστείᾳ (Pois este tipo não sai, a não ser pela oração e pelo jejum)

Manuscritos que trazem essa leitura: א C D E F G H K L O W X Y Δ Π Σ f1 f13 22 28 (118 205 209 1505 l1074 ἐξέρχεται) 157 180 565 597 700 892c 1006 1009 1010 1071 1079 1195 1216 1230 1241 1242 1243 1253 1292 1342 1344 1365 1424 1546 1646 2148 2174 Byz (l184) (l514).

Manuscritos onde essas palavras estão ausentes: א* B Θ 0281 33 579 788 892* 1604 2680 l253

Exemplo 4 – Mateus 5:22 –Variante Significante – Adição ou Omissão

πας ο οργιζομενος τω αδελφω αυτου (quem odiar seu irmão)

Manuscritos que trazem esta leitura: א B p64 p86

πᾶς ὁ ὀργιζόμενος τῷ ἀδελφῷ αὐτοῦ εἰκῇ (quem odiar seu irmão sem motivo)

Manuscritos que trazem esta leitura: אc D K L W Delta Theta Pi f1 f13 28 33 565 700 892 0233 1010 1071 1241 Byz Lect[4]

Comentário: “sem motivo” (Gr. εἰκῇ) no verso é considerado pelos críticos textuais que adotam o Método Eclético uma adição posterior, principalmente porque esta palavra não consta nos manuscritos Alexandrinos (os mais antigos). Considerando evidências internas, “sem motivo” parece não fazer sentido no contexto. Quem odeia alguém sem motivo? Pode até ser que alguém não simpatize com outrem sem motivo, porém odiar é bem diferente. Esta adição parece ser uma corrupção encontrada no texto Bizantino. Por outro lado, esta variante não afeta qualquer doutrina essencial do Cristianismo. Apesar de alguns eruditos da escola de pensamento de Burgon apontarem que a ausência de “sem motivo” neste verso faz de Jesus um pecador por causa de seu ódio em Marcos 3:5, esta é uma má interpretação. Em Marcos 3, Jesus ficou com ódio de algumas pessoas que realizavam câmbio nos átrios do templo de Jerusalém, e essas pessoas não eram irmãos. E mais, Jesus teve sim um motivo – o câmbio nos pátios do Templo. Sobretudo, o ensinamento cristão essencial é amar ao próximo como a si mesmo, e isto não está sendo afetado pelo verso em pauta. Jesus, no verso, está condenando claramente o ódio (com ou sem motivo). Portanto, a presença (ou ausência) de “sem motivo” no original, enquanto seja significante textualmente, não afeta nenhuma doutrina essencial do Cristianismo.

Exemplo 5 – Marcos 16:9-20 –Variante Significante – Adição ou Omissão

Manuscritos onde os versos 9-20 estão presentes: A C D K (W X Δ Θ Π f13 28 33 157 180 274text 565 597 700 892 1006 1009 1010 1071 1079 1195 1230 1241 1242 1243 1253 1292 1342 1344 1365 1424 1505 1546 1646 2148 2174 2427 Byz Lect

Manuscritos que não trazem os versos 9-20: א B 304

Comentário: alguém poderia pensar que a ausência desses versos no original do Evangelho de Marcos, poderia alterar doutrinas como o Batismo, a Salvação, Milagres ou a ordem de evangelizar. Porém, todas essas doutrinas constam em outros livros do Novo Testamento, portanto, a ausência desses versos (caso seja assim no original) não afeta qualquer doutrina cristã.

Exemplo 6 – Lucas 1:28 –Variante Significante – Adição ou Omissão

Κύριος μετ σο. ελογημένη σν γυναιξίν. (o Senhor é convosco! Bendita és tu entre as mulheres!)

Manuscritos que trazem essa leitura: A C D E G H K X Δ Θ Π 053 0135 0233 f13 28 33 157 180 205 597 892 1006 1009 1010 1079 1195 1216 1230 1242 1243 1253 1292 1342 1344 1365 1424 1505 1546 1646 2148 2174 Byz Lect

Κύριος μετ σο. (o Senhor é convosco!) 

Manuscritos que trazem essa leitura: א B L W Ψ f1 565 579 700 1241 l44m

Κύριος μετ σο. εὐλογημένη σὺ ἐν γυναιξὶν καὶ εὐλογημένος ὁ καρπὸς τῆς κοιλίας σου (o Senhor é convosco! Bendita és tu entre as mulheres! Bendito é o fruto do teu ventre!)

Manuscritos que trazem essa leitura: 1071 l1074

Restaurando os textos originais – A Crítica Textual do Novo Testamento

Uma complexa ciência/arte se desenvolveu com o objetivo de restaurar os textos originais na literatura manuscrita antiga; ela é chamada de Crítica Textual. Devido à vasta documentação do Novo testamento e às leituras variantes entre os seus manuscritos, alguns eruditos da Crítica Textual se dedicam especialmente ao estudo do texto do Novo Testamento, e têm chegado a conclusões sobre a sua originalidade com um bom grau de confiança.

Existem basicamente dois grupos de estudiosos textuais do Novo Testamento. O primeiro grupo é composto de catedráticos de grandes universidades norte-americanas e européias (principalmente alemãs e inglesas), que adotando a Teoria Genealógica, originalmente elaborada pelos ingleses Westcort e Hort, desenvolveram o Método Eclético. Os críticos textuais ecléticos aplicam princípios gerais da Crítica Textual Científica aos manuscritos do Novo Testamento, da mesma forma como os Críticos Textuais gerais fazem com relação aos demais livros e documentos manuscritos antigos da literatura clássica. Os textos editados por esse primeiro grupo de eruditos normalmente partem do texto dos Códices Sinaítico (א) e Vaticano (B) como referencial, mas alguns versos são corrigidos com base em outros manuscritos, segundo os princípios do citado método. Este grupo edita dois textos gregos principalmente a partir dos manuscritos mais antigos (datados do segundo ao quinto século), descobertos principalmente no Egito (também chamados de manuscritos Alexandrinos). Nesses manuscritos, algumas palavras, versos e passagens inteiras, que aparecem na maioria dos outros manuscritos mais recentes, não constam.

Os estudiosos textuais que adotam o Método Eclético nos legaram dois textos Gregos segundo o que julgam serem os originais do Novo Testamento. São chamados de textos críticos e são: (1) O Texto da Sociedade Bíblica Unida (4ª edição); (2) O texto de Nestle-Alland (27ª edição)[5]. Eles são bastante semelhantes entre si e são os mais utilizados hoje em dia para traduções do Novo Testamento. Algumas versões modernas em Português foram traduzidas ou editadas a partir desses textos.  Na Versão Almeida Revista e Atualizada (da editora Sociedade Bíblica do Brasil), o Novo Testamento foi traduzido pelo Português João Ferreira de Almeida a partir de um texto Grego Bizantino de pouca qualidade, mas foi atualizada segundo o texto crítico da Sociedade Bíblica Unida (SBU). A versão NVI traz um texto em Português traduzido diretamente dos textos críticos da SBU e do texto de Nestle-Alland por um comitê internacional de eruditos cristãos. Em ambas as versões, a maioria dos versos ou palavras que não constam nos manuscritos egípcios está presente, mas, em algumas edições aparece entre colchetes, e em outras, as mesmas trazem algumas notas de rodapé com aparatos críticos (embora, na opinião deste autor, em quantidade muito pequena).

O segundo grupo de eruditos é composto de ortodoxos, que preferem seguir o Método do Texto Original, derivado da escola de pensamento de Willam Burgon. Partem do pressuposto de que a Bíblia não é um livro comum, portanto, não consideram ser adequado aplicar princípios científicos gerais para criticar o seu texto; assim; aplicam princípios críticos desenvolvidos pela própria escola, em harmonia com alguns princípios e doutrinas da fé cristã tradicional[6]. Os críticos textuais ortodoxos adotam e defendem o texto grego chamado Bizantino (Byz) ou Majoritário (Maj), editado a partir dos manuscritos chamados Bizantinos (os quais compõem a maioria dos manuscritos do Novo Testamento hoje existentes, embora não sejam tão antigos quanto os Alexandrinos). Os manuscritos Bizantinos trazem um texto Grego mais “cheio”; contêm palavras, versos e até passagens inteiras que não constam em alguns manuscritos mais antigos. Os manuscritos do Texto Bizantino datam a partir do Século V — não foram encontrados, pelos Arqueólogos, manuscritos do Texto Bizantino anteriores ao Século V. Outro detalhe interessante é que entre os milhares de manuscritos que compõem o texto Bizantino ou Majoritário há pouquíssimas variantes. Um detalhe a mais sobre o texto Bizantino (em Grego) é que ele é impressionantemente harmônico, e praticamente não contém erros ortográficos ou de qualquer ordem linguística. Tudo indica que houve uma edição/revisão antiga desse texto (talvez no Século V) e que os escribas que o copiaram manualmente nos séculos posteriores foram-lhe bastante fiéis.

Até o presente momento, não há nenhuma versão em Português traduzida diretamente a partir do Texto Bizantino – o editado pela Igreja Ortodoxa Grega. No entanto, há duas versões brasileiras que traduzem um texto grego bastante próximo ao Bizantino, a qual é a versão Almeida Revista e Corrigida (também chamada de Fiel) e a Versão Contemporânea. Essas versões em Português foram editadas tendo como base a tradução original feita por João Ferreira de Almeida, que traduziu a segunda edição do texto grego editado pelos irmãos holandeses Boaventura Abraão Elzevir, em 1633. Segundo Paroschi (1999)[6], esta segunda edição dos irmãos Elzevir trazia um prefácio em Latim, que dizia “o texto que é agora recebido por todos, no qual nada damos por modificado ou corrompido”. Por causa desse elogio exagerado dos editores à sua própria obra, este texto veio a ser amplamente conhecido como Textus Receptus (Texto Recebido). Na Versão King James (1611) esse texto dos irmãos Elzevir foi adotado como base para a tradução em Inglês do Novo Testamento. Este Textus Receptus nada mais era do que uma nova edição do texto grego editado com o nome de Novum Testamentum pelo humanista Desidério Erasmo (conhecido como Erasmo de Roterdã), em 1516, e que incorporava algumas contribuições das edições do Novo Testamento Grego feita pelo protestante francês Robert Estefan e pelo suíço Teodore Beza – sucessor de Calvino em Genebra.

Erasmo de Roterdã editou às pressas aquele que veio a se tornar o primeiro texto grego do Novo Testamento publicado na história. Ao visitar a Basiléia, Erasmo foi contratado pelo editor J. Froben para editar um texto grego do Novo Testamento, de modo que fosse publicado antes da edição do Novo Testamento Grego que estava sendo preparada pelo Frei espanhol Ximenes de Cisneros. Também segundo Paroschi (1999, p. 109) et alli, Na Basiléia, “Erasmo não encontrou manuscritos gregos suficientemente bons, e nenhum que contivesse o NT completo.” A sua tradução baseou-se tão somente em seis manuscritos do Século XII, e, para o livro de Apocalipse, utilizou outro manuscrito (também do Século XII) que um amigo lhe emprestou. Neste manuscrito (lr) faltavam os seis últimos versos do livro. Para suprir esta falta, Erasmo traduziu esses seis versos da Vulgata Latina.

Como se pode perceber, o texto grego de Erasmo de Roterdã era um texto de má qualidade, pois era muito mesclado, e baseado em pouquíssimos manuscritos tardios. Além disso, a primeira edição, por ter sido apressada, saiu com vários erros tipográficos, corrigidos em quatro outras edições posteriores. Conforme Metzger (2003, p. 145), Martinho Lutero baseou a sua tradução do Novo Testamento para o Alemão na segunda edição desse texto de Erasmo. Antes do texto editado pelos irmãos Elzevir, o texto de Erasmo era o mais influente no mundo, por ter sido o primeiro a ser publicado. Embora corrigido dos erros tipográficos, a qualidade textual deste texto de Erasmo piorou ainda mais em sua terceira edição, em 1522, quando, por pressão da Igreja Católica Romana, ele incluiu um acréscimo a 1 João 5.7-8, existente em apenas um manuscrito “antigo” – o qual foi depois confirmado ter sido falsificado em 1520, em Oxford, por um frade Franciscano chamado Froy, que traduziu 1 João para o Grego a partir da versão latina Vulgata.

Como já foi dito, este texto de Erasmo de Roterdã foi reeditado posteriormente pelos irmãos Elzevir, tornando-se então no amplamente conhecido Textus Receptus (Texto Recebido). Diante dos fatos, é admirável que ainda existam hoje protestantes e católicos defendendo o Textus Receptus como sendo um texto fiel aos originais. A esta altura pode-se notar que os textos críticos (editados a partir do Método Eclético), por se basearem em todos os manuscritos disponíveis, e por geralmente dar preferência aos manuscritos mais antigos e melhores, possuem muito maior probabilidade de representarem o texto original do Novo Testamento.

O mais importante, entretanto, é que nenhuma variante nos manuscritos do Novo Testamento (em Grego) afeta as doutrinas essenciais do Cristianismo. Consequentemente, não há razão para crer que os principais ensinos cristãos foram deturpados ao longo dos anos. Os Evangelhos do Novo Testamento e as cartas dos apóstolos editadas atualmente pelos críticos textuais científicos trazem, com grande probabilidade, a mensagem e boa parte da história de Cristo, e se constituem nas “memórias dos apóstolos”, como Justino Mártir (Séc. II) a eles se referiu. Pode-se dizer que, quando o Novo Testamento é lido hoje, mesmo nas piores edições, são lidas as palavras que o Senhor quis que guardássemos no coração, afim de que fôssemos por ele salvos e vivêssemos uma vida que lhe agrada.

E quanto à preservação do Antigo Testamento?

Os Rolos do Mar Morto, descobertos em 1947 nas cavernas de Qumran são manuscritos datados de 150 a.C. e são mais antigos do que os manuscritos massoréticos, que existiam em nossa posse até então, os quais datavam de 980 d.C. Os textos de Qumram e os massoréticos (de 980 d.C.) são essencialmente os mesmos! É impressionante a precisão do Antigo Testamento.

O Dr. Gleason Archer, que examinou pessoalmente os rolos de Qumram (cf. Geisler), afirmou que o texto do Livro de Isaías encontrado em Qumram, os outros de 980 d.C. e os textos hebreus da Bíblia são idênticos, palavra por palavra, em mais de 95%. Fica claro que os copistas judeus do Velho Testamento o reproduziram com uma acurácia espantosa.

Conclusão

O homem contemporâneo possui a essência do que foi escrito há muitos anos atrás, por homens “movidos pelo Espírito Santo”. Apesar das variantes do Novo Testamento, a essência da mensagem de Jesus chegou até os dias atuais sem alteração. Deus, inspirou, preservou e fez com que as suas palavras fossem transmitidas, geração após geração. Podemos edificar a nossa alma com a leitura das palavras que o Senhor quis que recebêssemos. Podemos crer no Senhor Jesus, ser salvos e vivermos para Ele num relacionamento de amor, porque o Senhor é bom e nos deu sua Palavra.

——————————————————————————————-

Perguntas para reflexão e aprofundamento

  1. Na antiguidade era muito raro alguém possuir textos escritos. As cópias manuscritas eram caras. Os antigos judeus guardavam versos e trechos do Velho Testamento como se fossem grandes tesouros, que dinheiro algum poderia comprar. Eram as palavras de Deus; valiam mais do que qualquer outra coisa. Os crentes hoje têm este tipo de apego à Bíblia? O que você acha sobre este tipo de sentimento sobre a Bíblia?
  2. Hoje em dia muitos oponentes da fé cristã atacam a confiabilidade da Bíblia por causa das leituras variantes dos milhares de manuscritos gregos do Novo Testamento. Depois de ler este estudo, qual é a sua opinião sobre isso?
  3. O que você acha sobre a acurácia da transmissão do Antigo Testamento, feita pelos antigos escribas judeus?
  4. Muitas pessoas “fecham questão” a respeito de certas versões da Bíblia. Em países de língua inglesa, há crentes que só admitem como Palavra de Deus a versão King James. No Brasil, há crentes que só admitem as Bíblias Almeida Revista e Atualizada, da Sociedade Bíblica do Brasil. Outros, a versão Almeida Revista e Corrigida. Os católicos mais tradicionais dizem que a única Bíblia confiável em Português é a versão do Padre Matos Soares (tradução feita a partir de uma versão em Latim), porque ela  é a versão mais antiga oficializada pela Igreja Católica Romana. Como você vê as diferentes versões existentes hoje em Português?

[1] METZGER, Bruce. ERHMAN, Bart D. Statistics of Greek manuscripts of the New Testament in The Text of the New Testament: Its Transmission, Corruption, and Restoration. 4th Edition. Oxford Press. 2003.

[2] Codex ou Códice era uma espécie de fascículo; uma coleção de livros agrupados em uma capa de couro, semelhante às Bíblias modernas.

[3] DARRELL, L. Bock. Quebrando o Código Da Vinci. Osasco – SP: Novo Século Editora, 2004. 200 p.

[4] Lect. Uma referência à maioria dos lecionários – textos Gregos do Novo Testamento usados para leitura litúrgica, principalmente nas Igrejas Católicas Ortodoxas (Gregas).

[5] Este texto está disponível, palavra por palavra, no website http://nttranscripts.uni-muenster.de.

[6] Wilson Paroschi. Crítica Textual do Novo Testamento. 2ª. Edição. São Paulo: Vida Nova, 1999. P. 114.

[7] Dentre os princípios críticos textuais do Método do Texto Original, destaca-se o princípio da continuidade da transmissão do texto, pelo qual um manuscrito, para ser original, deve trazer um texto que não sofreu descontinuidade na história, pois Deus não permitiria que sua Palavra ficasse inacessível a nenhuma geração.

Related Posts

Tags

Share This

4 Comments

  1. Como explicar a Carta de São Jerônimo ao Papa Dâmasso revela como a ICAR manipulou textos dos evangelhos para favorecer sua doutrina. http://www.adventistas-bereanos.com.br/2006outubro/cartadesaojeronimoaopapadamasso.htm LEIA ISTO E EXPLIQUE.

    • PCE

      Caro Jota,

      Acho que você não entendeu direito a carta de Jerônimo ao Papa Dâmaso. O que Jerônimo disse nessa carta, a respeito do Novo Testamento, foi principalmente o seguinte:

      1) Que os manuscritos do Novo Testamento em latim continham muitos acréscimos, feitos por copistas (escribas) descuidados ou mal intencionados. Em momento algum ele afirma que a Igreja Católica Romana — como instituição — foi a responsável por esses erros de cópias. Essa conclusão é sua (confira o que estou dizendo, relendo o primeiro parágrafo da 4a. imagem da Carta, no site que você indicou);

      2) Que o então papa Dâmaso lhe encomendara fazer uma nova tradução latina que viesse corrigir as falhas constantes nos manuscritos latinos existentes (veja o primeiro e o terceiro parágrafos da 4a. imagem da Carta, no site que você indicou);

      3) Que os manuscritos mais antigos do Novo Testamento existentes em sua época eram escritos na língua grega, e que ele (Jerônimo) dispunha de alguns desses manuscritos gregos mais antigos para fazer a sua tradução para o latim (veja o primeiro parágrafo da 5a. imagem da carta, no site que você indicou);

      4) Que, na sua tradução para o latim, Jerônimo corrigiu apenas os versos e passagens onde ele percebeu que os manuscritos latinos mudavam o sentido dos manuscritos gregos. Que no restante, ele não alterou, para que o público da época não estranhasse tanto a sua tradução (veja o segundo parágrafo da 5a. imagem da carta, no site que você indicou);

      5) Que o Bispo de Cesareia (Eusébio) havia mandado produzir 10 Bíblias (ele chama de cânones) e que nessas Bíblias de Eusébio os textos (gregos) dos quatro evangelhos estavam misturados, ou seja, versos ou frases que nos manuscritos mais antigos só apareciam em um evangelho, nessas Bíblias de Eusébio, apareciam também em outros evangelhos (veja o terceiro parágrafo da 5a. imagem da carta, no site que você indicou).

      Então, não há nada na Carta de Jerônimo ao Papa Dâmaso que indique manipulação de textos dos evangelhos para favorecer doutrinas católicas.

      Agora, quero lhe informar, que o texto grego dos evangelhos que dispomos hoje (principalmente o da UBS e o de Nestle-Alland) é editado a partir dos manuscritos mais antigos, alguns inclusive do século II. Portanto, não temos um texto manipulado e nem traduzido do latim. Temos hoje em dia um texto grego do NT muito próximo aos originais.

      Graça e paz de Jesus.

      • Claudemir

        Olá muito esclarecedor seu estudo,na sua opinião qual a melhor tradução você me indicaria para ter

        • Marcio S. da Rocha

          Olá Claudemir,

          Em Português, recomendo a NVI e a Almeida Revista e Atualizada.

Trackbacks/Pingbacks

  1. As Doutrinas Centrais do Cristianismo | Pensamento Cristão Essencial - […] encontrados pelos arqueólogos só afetam ensinos periféricos do Cristianismo (ver o artigo “A preservação das Escrituras“, neste […]
  2. A Autoridade e a Inerrância das Escrituras Sagradas | Pensamento Cristão Essencial - […] variantes, quando comparados entre si. Isto não significa que Deus não preservou a sua palavra. A Preservação das Escrituras…